Roteiro na Sicília: uma viagem de carro de Palermo a Siracusa

Scala dei Turchi - Parada na viagem de carro pela Sicília, na Itália

Talvez uma vida inteira não seja suficiente para conhecer a Sicília, essa ilha na Itália cheia de lendas. Há tanta história para desvendar, pratos para experimentar e lugares para explorar! Mas posso dizer que esse roteiro de 11 dias na Sicília em uma viagem de carro foi um bom começo. Quer dizer, deu sim para ter um gostinho do que é a Sicília nesses mais de 1.000km percorridos!

Viagem de carro na Sicília: montando o roteiro de 11 dias

Aterrissamos em Palermo diretamente de um vôo da Ryanair saindo de Memmingen, na Alemanha. Achamos que era uma boa ideia deixar Palermo para o final da viagem, porque queríamos ter tempo para conhecer o street food da cidade… Por isso, partimos direto para a próxima cidade: Cefalù. Mas, antes, falemos sobre o roteiro de viagem na Sicília.

Roteiro na Sicília: plano inicial e as cidades escolhidas

Tínhamos uma vaga ideia de como seria nosso roteiro, mas não tínhamos as datas confirmadas (muito menos hotéis). O plano era não ter muito plano: íamos decidindo quantos dias ficar em cada lugar à medida que chegávamos. Nossa ideia inicial era dar uma volta na ilha completa, mas isso não foi possível em apenas 11 dias de viagem. Cidades do sul da ilha, como Ragusa, infelizmente ficaram de fora.

Outro detalhe importante foi o período em que viajamos: no verão provavelmente seria impossível fazer esse tipo de viagem porque os hotéis e atrações estariam lotados… Mas como nossa viagem aconteceu em outubro, foi tranquilo viajar com um roteiro aberto e flexível.

Dirigir na Sicília: o quê saber antes de viajar na ilha?

Alugamos o carro pela Leasys através do site de reservas da Ryanair e fizemos a retirada no aeroporto de Palermo, nosso ponto inicial e final do roteiro na Sicília.

Trânsito na Sicília

O trânsito na Sicília é caótico e, por isso, é comum que os carros alugados venham com riscas e batidas. Importante: confira muito bem todos os riscos e batidas do carro antes de assinar a entrega – pode acontecer de que os danos causados pelo locatário anterior sejam cobrados na sua fatura. Na Sicília, também é imprescindível fazer um seguro para o carro. Você verá que os sicilianos estacionam nos lugares mais improváveis e o risco de um arranhão (ou uma batida!) acontecer são altos. Melhor previnir.

Leis italianas

Os italianos são extremamente rígidos com as leis de trânsito. Evite circular com o carro em centros históricos, porque nem sempre as placas são claras e as chances de multa nesses locais é altíssima. Vai estacionar em locais públicos? Antes verifique a existência de máquinas de ticket e pague de acordo com o período que irá deixar o carro estacionado.

Permissão Internacional para Dirigir

Brasileiros podem dirigir na Itália portando a PID (Permissão Internacional para Dirigir) e, junto a ela, passaporte e CNH. De preferência, leve a PID e a CNH com tradução juramentada para o italiano. A PID é emitida ainda no Brasil pelo Detran – verifique no seu estado.

Dia 1: de Palermo a Cefalù

O que fazer em Cefalù - vista do porto antigo
Cefalù: a vista do porto antigo

Seguimos então de Palermo para Cefalù, a apenas 70km da capital siciliana. Ali, naquela pequena cidade permanecemos apenas uma noite – o suficiente para conhecer alguns dos pontos mais interessantes dentro da cidade mesmo, já que o acesso à Rocca estava fechado para manutenção. Ocupada por Normandos (os vikings!), gregos, romanos e árabes, Cefalù preserva um centro histórico datado da Idade Média com pontos turísticos interessantes – como o Lavatoio Medievale e a Catedral com belos mosaicos, considerada Patrimônio da Humanidade pela Unesco. A vista do porto antigo é um cartão-postal conhecido da ilha.

Dias 2 e 3: Stromboli, um vulcão em erupção na Sicília

Stromboli, na Sicília
Stromboli, na Sicília: onde é possível presenciar explosões a cada 20 minutos!

Logo de manhã partimos para Milazzo, de onde saíam barcos com destino a Stromboli, uma pequena ilha no norte da costa Sicília e parte do arquipélago das ilhas Eólias, no mar Tirreno. Este é um passeio imperdível para quem ama aventura e um dos meus lugares preferidos na Sicília!

Stromboli é um dos três vulcões ativos na Itália (juntamente com o Vesúvio e o Etna). E, não se preocupe se não estiver fit: a trilha até o ponto panorâmico é muito tranquila de ser feita.

Em Stromboli, dormimos duas noites na Pousada La Lampara, jantamos duas vezes no L’Osservatorio, restaurante com vista para as explosões, exploramos as praias vulcânicas e as pequenas ruelas vazias. Se você está com o roteiro apertado, uma noite por lá provavelmente é o suficiente.

Dia 4 – Taormina

Isola Bella, em Taormina. Uma lindeza, n’é?

Taormina é uma das cidades mais famosas da Sicília. É extremamente turística e, por isso, se prepare para ruas cheias de lojinhas e com menos alma do que outras cidades sicilianas (sabe aquela atmosfera um pouco artificial de Veneza? Então…). Por outro lado, Taormina é absurdamente bonita. E por isso vale incluí-la em seu roteiro de viagem!

A cidade está localizada em um precipício na costa. De lá do alto, é possível ver o mar de águas claras e a Isola Bela. Taormina é casa do Teatro Greco, construído pelos gregos no século 3 a.C. O Antigo Teatro não é mesmo um teatro qualquer: ele possui vista para o majestoso vulcão Etna.

Passeamos sem rumo pelas ruas de Taormina até encontrarmos uma antiga hípica romana de dois mil anos. Foi interessante perceber como o lugar em ruínas foi usado como base para outras construções mais recentes e como a natureza se apossou dos tijolinhos, deixando o lugar ainda mais especial. A Villa Comunale, com seus jardins criados por uma nobre inglesa, é outro lugar interessante e perfeito para fugir do calor em dias de verão.

Uma vez que não era possível entrar de carro no centro histórico, passamos uma noite em uma pousada próxima a área da estação de trem, o B&B Sottocoperta, onde estacionamos o carro no melhor jeito siciliano: encostadinho em um muro de pedra, bem no acostamento de uma rodovia bem movimentada. O café da manhã do B&B era uma delícia, os donos eram super queridos e apesar da pousada ficar mais afastada do centro, não foi um problema subir de bondinho até a cidade (e descer no final do dia pela escadaria com uma bela vista para a Isola Bella).

Dia 5 – Vulcão Etna e Siracusa

Vulcão Etna: até onde é possível chegar de carro

Espalhado por 1190 km², o vulcão Etna é uma obra de arte da natureza. É um dos vulcões mais altos da Europa com seus 3350 metros de altitude e é um deslumbre observá-lo de longe. Mas depois de conhecer Stromboli, decidimos que queríamos também conhecer o vulcão Etna de pertinho.

Por isso, subimos de carro até onde foi possível (1.900-2.000 metros de altitude). Dali, decidiríamos se pegaríamos o bondinho até o próximo estágio com mais altitude. A ideia foi abortada logo que saímos do carro. Era outubro e ali, naquela altitude, já fazia muito frio, havia neblina e muitas nuvens. Sem o agasalho corta-vento era muito difícil explorar as crateras. Então, decidimos seguir viagem para Siracusa.

Ruínas do anfiteatro de Siracusa, na Sicília

Assim que chegamos a Siracusa no início da tarde, deixamos as malas no carro e seguimos para o Parque Arqueológico Central de Neapolis, que inclui o Anfiteatro Romano, o Teatro Greco e o Orecchio di Dionisio. Passamos a tarde explorando cada detalhe desse sítio arqueológico ao ar livre. Uma delícia! No final da tarde, seguimos para conhecer o centro de Siracusa e, uau, que cidade bonitinha! Desejei ter mais tempo para conhecer a Siracusa de verdade. Um dia inteiro não foi suficiente em Siracusa… Infelizmente, fica para a próxima!

Dia 6 – Vale dos Templos, em Agrigento

O Vale dos Templos, em Agrigento, era um dos momentos mais esperados do nosso roteiro de viagem na Sicília. E não por acaso: ali está um conjunto de templos gregos considerados os mais bem preservados do mundo.

Primeiro, paramos na cidade de Agrigento e a cidade estava absolutamente morta. Perdemos tempo precioso ali. Mas para não dizer que a viagem à cidade de Agrigento foi completamente perdida: a vista do mar e dos templos da cidade é muito bonita.

Entramos no Vale dos Templos no meio da tarde e, claro, faltou tempo para conhecer melhor as construções. O Vale dos Templos pede, no mínimo, um dia completo de visita. O parque é enorme e são muitos templos do período helenístico e construções para conhecer. A área onde estão os templos gregos são povoadas por centenas de oliveiras e amendoeiras. Estar ali é como viajar no tempo. Uma experiência única e muito especial, de verdade.

O parque arqueológico Vale dos Templos consiste em oito templos construídos entre cerca de 510 AC e 430 AC: o Templo de Hera, o Templo de Concordia, o Templo de Hércules, o Templo de Zeus Olímpico, o Templo de Castor e Pólux , o Templo de Hefesto, o Templo de Deméter e o Templo de Asclépio (o Deus da Medicina). Com exceção deste último, que se encontra nas margens do rio Akragas, todos estão situados ao longo de uma crista rochosa abaixo do Agrigento dos dias modernos.

Fica a dica: o calor também é um fator a ser considerado na visita, por isso não se esqueça de levar água, chapéu e protetor solar. Há um café bem simples dentro do parque, caso seja necessário uma pausa para um breve cannolo (toda hora é hora, vamos combinar!).

Dia 7 – Scala dei Turchi

Scala dei Turchi: um dos atrativos da região de Agrigento

Sinceramente? Não gostamos da cidade de Agrigento e, por isso, decidimos dormir em outro lugar. Pernoitamos então em Porto Empedocle, conhecido por ser sítio de desembarque de muitos navios de refugiados provenientes da África, a poucos quilômetros da famosa Scala dei Turchi (Escada dos Turcos), um penhasco rochoso formado por marga, uma rocha sedimentar de cor branca. A Scala dei Turchi fica a apenas 15km de Agrigento e é um ótimo passeio para quem está na região.

O penhasco está localizado entre duas praias de areia, e para chegar até ele é preciso descer uma escadaria. Infelizmente o acesso à Scala dei Turchi estava fechado por risco de desabamento (outubro 2020), mas deu para apreciar a beleza de longe.

Dia 8 – Trapani

Como já estávamos um pouco cansados de dormir apenas um dia em cada cidade siciliana, decidimos passar por ali duas noites no centro histórico. Por isso, alugamos um studio com cozinha, onde foi possível comprar atum no mercado de peixe local e cozinhá-lo, além de aproveitar um pouco do clima da cidade com mais tranquilidade. Era um apartamento localizado literalmente dentro do muro da cidade, com vista para o mar.

Trapani, assim como Marsala, é famosa por suas salinas com moinhos. Para belas fotos panorâmicas, vá ao Museu do Sal. Se você tiver mais tempo, saem de Trapani barcos para as Ilhas Égadas (Marettimo, Levanzo e Favignana). Nas redondezas, também vale conhecer San Vito Lo Capo, com seu farol e praia de águas cristalinas, e a Reserva Natural do Zingaro, onde é possível praticar snorkeling.

Dia 9 – Erice

Erice é parada obrigatória para quem inclui Trapani em um roteiro pela Sicília. É que essa bela vila medieval de pedra no topo da montanha (que lembra muito San Marino, aliás!) tem vistas incríveis para toda a região. Dá até para ver as salinas de Trapani de lá do alto!

A vila de Erice era conhecida pelo nome de Eryx, em homenagem ao filho do “deus Poseidon ou de Afrodite e do herói Brutes” na mitologia grega. Ela foi ocupada por fenícios, espartanos, romanos e normandos. As fortificações e paredes defensivas construídas ao longo de 3.000 anos ainda estão de pé na parte noroeste da cidade.

Erice foi também o lar de um importante templo romano de Vênus – a deusa do amor, sexo e fertilidade – mas a construção praticamente desapareceu ao longo dos anos. Hoje, o Castelo de Vênus fica no local do templo e continua a levar seu nome.

Para chegar a Erice, há uma pequena estradinha que leva à vila (14km, cerca de 30 minutos de Trapani). Também é possível chegar até lá de teleférico ou ônibus.

Dias 10 e 11 – Palermo

Finalmente, Palermo! A capital da Sicília, e última parada do nosso roteiro na ilha, é vibrante, cheia de vida e coisas acontecendo por toda a parte o tempo todo. Passamos duas noites ali, bem no centro do histórico Mercado Ballarò, porque nosso foco era experimentar o famoso street food da cidade.

Achei o lugar absolutamente incrível: Palermo mais lembra uma mistura de cidades espanholas com o Cairo – e uma pitadinha da Itália. É muito diferente de todas as outras cidades italianas que já conheci.

Acordávamos logo na agitação e, a pé, foi possível conhecer pontos turísticos como o Palácio dos Normandos, a Catedral de Palermo, a Igreja La Martorana, o Palácio Real de Palermo e as Catacumbas dos Capuchinhos (provavelmente, o passeio mais macabro que já fiz na vida). Também fomos até Monreale conhecer os edifícios que, juntamente com a Catedral de Cefalù, são listados como Patrimônio Mundial da Unesco. Ufa!

A bela Cefalù, na Sicília: o lugar perfeito para explorar vielas medievais e se esbaldar em cannoli

O que fazer em Cefalù - vista do porto antigo

Um amontoado de casinhas de tons pastel em frente a um porto antigo são o cartão postal da pequena Cefalù, no norte da Sicília, a apenas 70km de Palermo, capital da ilha. Para apreciar a beleza de Cefalù, você deve se afastar um pouco: ir até o calçadão beira-mar da cidade nova. De lá, será possível admirar o contraste do mar de águas verde esmeralda com as casinhas em 100 tons de alaranjados e amarelados.

Uma enorme rocha que cresce a 270 metros logo atrás da vila completa o cenário. Cefalù é considerada uma das vilas mais bonitas da Itália e, por essa descrição, você já pode imaginar o porquê!

Mas, ainda bem, Cefalù não se resume a uma bela foto! Há muito o que explorar nas vielas cheias de história dessa pequena charmosa cidade siciliana de apenas 15 mil habitantes. E, por isso mesmo, Cefalù foi nossa primeira parada em nossa viagem de carro pela Sicília. Passamos uma noite nessa bela cidade e, por isso, esse post é ideal para quem procura um roteiro de um dia em Cefalú.

Outro detalhe importante: viajamos em outubro (ou seja, fora de temporada) e, por causa da pandemia, as cidades sicilianas então lotadas de turistas estavam vazias.

Antes, um desabafo: estacionar em Cefalù pode ser um drama!

Saímos do aeroporto de Palermo em nosso carro alugado com destino a Cefalù e logo enfrentamos a primeira dificuldade: estacionamento. Apesar de possuir estacionamento público nas ruas, as maquininhas não funcionavam – mas ainda assim, os policiais passavam controlando os carros sem ticket. Irônico, né? Foi uma odisseia até encontrar uma vaga de estacionamento E uma máquina que funcionasse nas proximidades. Por isso, preferimos um hotel mais longe do centro, mas com estacionamento e exploramos a cidade a pé.

Uma das passagens para o mar em Cefalù

Por que Cefalù?

Cefalù era conhecida como Kephaloidion e Coephaledium para gregos e romanos, que significa “cabeça” ou “topo, extremidade”. Para os árabes, era Gafludi, cidade fortificada de águas abundantes. Pelos pontos turísticos, você irá perceber que muito da história de Cefalù está ligada à água. A rocha que deu nome à cidade era conhecida também pelos fenícios como “Promontório de Hércules”. Não faltam lendas em Cefalù!

Ao longo dos séculos, a cidade foi dominada por gregos, siracusianos, romanos, bizantinos, árabes e normandos. Não é errado dizer que a riqueza de Cefalù mora na variedade cultural.

O que fazer em Cefalù?

Pôr-do-sol e a tempestade que se aproximava

É uma delícia explorar as vielas da cidade antiga de Cefalù tranquilamente. Ela tem todo o charme que você espera de uma cidade siciliana: um centro histórico que data da idade média, um mar de águas cristalinas, boa comida e um ambiente aconchegante. Não é difícil se encantar por Cefalù!

Encantar-se com os mosaicos da Catedral de Cefalù

Mosaicos na Catedral de Cefalu, Patrimônio da Unesco

A Catedral de Cefalù, erguida a partir de 1131, é o mais importante ponto turístico de Cefalù. Segundo uma lenda, a catedral foi construída nesta cidade e não em Palermo, capital do reino, seguindo uma promessa feita ao pelo rei Roger, que escapou de uma tempestade e pousou nas praias da aldeia. Mais prováveis são as motivações de cunho político-militar, dadas as conotações do território e as características inegáveis de fortaleza natural e as proporções fora da escala da Basílica, tudo ampliado pelas antigas muralhas megalíticas da cidade cujas evidências permanecem ao longo das falésias da Giudecca (Postierla) e na antiga Porta Terra (hoje Piazza Garibaldi).

A Catedral de Cefalù faz parte de um grupo de 9 construções do Reino Normando da Sicília (1130-1194) que estão listadas como Patrimônio da Humanidade pela Unesco. Juntas, essas construções são um exemplo de sincretismo sócio-cultural entre as culturas ocidental, islâmica e bizantina na ilha, que deu origem a novos conceitos de espaço, estrutura e decoração. Eles também testemunham a convivência de pessoas de diferentes origens e religiões (muçulmanos, bizantinos, latinos, judeus, lombardos e franceses). Uma maravilha, sim!

Templo de Diana e o culto à água

O Templo de Diana é um monumento megalítico do século IV aC., localizado em uma planície no lado oeste de ‘Rocca’. O templo tinha originalmente uma função sagrada ligada ao culto local da água.

Nas proximidades do templo, existem várias ruínas de muralhas defensivas erguidas ao longo dos séculos, bem como ruínas de pequenas capelas, quartéis, fornalhas e armazéns.

Lavatoio Medievale e histórias de ninfas

Uma viagem no tempo no Lavatoio Medievale

É o meu ponto turístico de Cefalù favorito! Depois de descer uma escada feita de pedras de lava, você encontrará um espaço semicoberto que abriga uma série de antigas bacias, alimentadas pelo rio Cefalino que flui de vinte e duas bocas em forma de leão de ferro.

Do lado direito da entrada, uma inscrição te transporta para uma antiga lenda: “Aqui corre Cefalino, mais saudável que qualquer outro rio, mais puro que a prata, mais frio que a neve”. Conta a lenda que o rio Cefalino nasceu das lágrimas incessantes de uma ninfa que lamentava ter castigado com a morte o amado que a traiu. Ah, as lendas sicilianas de traição!

A beleza da Porta Marinha

Pôr-do-sol na Porta Marinha

A Porta Marinha é um arco gótico e o único portão da cidade remanescente dos quatro que antes davam acesso à cidade. Ele dá acesso do centro ao porto antigo.

Rocca di Cefalù e mais uma história de amor traído

É impossível passar pela Rocca sem notar a sua opulência. Um mito grego fala do amor e do desespero do pastor Daphnis, o Orfeu da Sicília. Ele foi cegado pela deusa Hera, cuja filha ele havia traído, e foi então transformado pelo deus Hermes no enorme penhasco que domina Cefalù e que deu o nome ao lugar. Os antigos habitantes da Grécia viam a enorme rocha como uma cabeça gigantesca, e “cabeça” é de fato o significado do nome da cidade.

Cefalù: o Duomo e a Rocca

No topo de La Rocca estão as ruínas do Castelo de Cefalù. A estrutura data dos séculos 13 a 14 e, provavelmente, tem uma das vistas mais bonitas da região. Digo provavelmente porque, infelizmente, quando visitamos Cefalù (Outubro de 2020), o acesso à Rocca estava fechado para obras.

Muros megalíticos

As paredes megalíticas são uma muralha construída com a técnica de pedra seca em enormes blocos de um metro de espessura. As muralhas, ainda hoje muito bem preservadas, principalmente no lado norte, abrangiam toda a cidade e davam a aparência de uma fortaleza invencível.

Até os anos 600, ao longo das paredes, abriam-se quatro portas: duas ao sul, “Land Door” na Piazza Garibaldi, e “Osuna Door” na Praça Colombo, a oeste “a porta da Marinha ou açude” e para a leste “porta Giudecca”.

Assistir o pôr-do-sol no porto antigo

O pôr-do-sol no porto é a maneira certa ) de finalizar um dia em Cefalù. A vista da cidade e da Rocca é absolutamente de tirar o fôlego! Se preferir um fim de tarde regado a vinho, minha dica é a Enoteca Le Petit Tonneau.

Museu Mandralisca: moedas e conchas

O museu foi fundado por Enrico Piraino, o Barão de Mandralisca, no século 19 e inclui coleções arqueológicas de conchas e moedas. Também abriga uma galeria de arte e uma biblioteca com mais de 9 mil obras históricas e científicas, incluindo incunábulos, livros do século 16 e cartas náuticas.

Um descanso nas praias de Cefalù

Se ainda sobrar um tempo, é hora de aproveitar o mar de águas calmas e limpinhas das praias de Cefalù! Ali nas aforas do centro histórico, há uma grande variedade de barracas que oferecem cadeiras e guarda-sol.

Onde comer em Cefalù?

Pasticceria siciliana: espresso e cannolo di pistacchio. Servidos?

Estamos na Sicília e o que não faltam são boas opções – que vão do street food à pasticceria siciliana. De dia, nos aventuramos nos arancini da Fritto&Divino – uma experiência OK.

Pausa para o café da tarde : ali na praça da Catedral de Cefalù há uma pasticceria com uma ótima variedade de doces e café muito bom, apesar do atendimento deixar a desejar: o Bar Duomo.

Por fim, nosso jantar (ou melhor, aperitivo!) foi regado a vinho! Fomos até a Enoteca Le Petit Tonneau para experimentar os famosos vinhos sicilianos. O lugar ainda tinha disputadas mesinhas no terraço com vista para o mar (nesse caso, só fazendo reserva para consegui-las). O ambiente e os aperitivos eram uma delícia, a dona do lugar muito atenciosa.

Onde dormir em Cefalù

B&B Bourgainville em Cefalù: eles tinham até uma capelinha. Quer coisa mais siciliana?

Com a dificuldade em encontrar vagas para estacionar o carro, nos hospedamos em um lugar fora do centro: o B&B Bourgainville. O B&B está localizado em um prédio histórico do século 19 reformado e tinha um café da manhã muito gostoso! Melhor: com estacionamento. De lá, íamos a pé para o centro da cidade.

Viagem de carro na Sicília: qual a próxima parada?

Saímos de Cefalù e seguimos para a ilha de Stromboli. Lá, tivemos uma das experiências mais incríveis da viagem – ou, talvez, da vida: dormimos em um vulcão ativo e vimos de perto as famosas explosões de um dos vulcões mais ativos do mundo. Veja também nosso roteiro de viagem na Sicília.

Mais informações úteis

Língua: Italiano
Moeda: Euro
Clima/Quando Visitar: De junho a outubro. Evite altíssima temporada (final de julho e começo de agosto), quando a cidade está lotadíssima. Nós visitamos em outubro e a temperatura era agradável (nada que um casaquinho não resolvesse!).
Visto para brasileiros: Dispensa visto por até 90 dias.

Ilha de Stromboli, na Itália: explorando um vulcão ativo na Sicília

Vulcão Stromboli, na Sicília: dicas de viagem e o que fazer na ilha

Chegar de barco em Stromboli é por si só uma experiência única. Essa pequena ilha ao norte da costa da Sicília, na Itália, é especial por diversos motivos. Stromboli é um vulcão ativo e ali, na sua base, está uma charmosa e pequena vila. Não só: Stromboli é um dos poucos vulcões no mundo em atividade permanente.

Vulcão Stromboli na Sicília
Vulcão Stromboli na Sicília

Assim que desembarcamos da lancha que nos trouxe de uma cidade siciliana, demos de cara com uma vista com praias de areias pretas contrastando com as casinhas brancas. Nada de carros. Apenas pequenos carrinhos, como os de golfe, que funcionam como táxi, levando os turistas para lá e para cá. Parece até que a gente havia aterrissado em Marte – ou em algum vilarejo afastado da Islândia. Mas a arquitetura das casas ali não mentiam: estávamos, de fato, no Mediterrâneo!

Stromboli: uma vila muito Mediterrânea
Em caso de maremoto: fique longe da zona costeira!

Vulcão Stromboli, o “Farol do Mediterrâneo”

Stromboli é uma das sete ilhas do arquipélago das ilhas Eólias, no mar Tirreno, e possui uma área de cerca de 12,6 km². É pequena mesmo – mas muito charmosa! Na mitologia grega, era em Stromboli que Éolo, personagem da Odisseia, vivia. Stromboli tem a forma de um cone e 926 metros de altitude. Do fundo do mar, a altura de Stromboli chega a 3.000 metros.

A lenda do mouro aparece por aqui também

Na ilha de Stromboli estão duas pequenas vilas: Stromboli e Ginostra. A vila de Ginostra pode ser acessada em um passeio de barco saindo de Stromboli. Dizem que, no inverno, a população de Ginostra é de apenas dez habitantes! No total, cerca de 500 pessoas habitam a ilha.

A tal da atividade estromboliana

Não por acaso Stromboli ganhou o apelido de “farol do Mediterrâneo”. É que o vulcão possui alta frequência de erupções: Stromboli é um dos vulcões mais ativos do mundo e possui explosões constantes, intervaladas por períodos de calmaria. Quando estávamos lá, as explosões aconteciam a cada 15-20 minutos, em média. Mas os intervalos podem acontecer de 5 minutos a uma hora. Stromboli se mantém ativo há pelo menos dois mil anos. Agora, o termo “atividade estromboliana” é usado para nomear essa forma de vulcanismo, com pequenas explosões em espaços constantes de tempo intercaladas com explosões mais fortes, em vulcões do mundo todo – do vulcão Etna, ali do lado, ao vulcão Raung, na Indonésia.

Duas noites em Stromboli

A nossa estada em Stromboli foi definitivamente o ponto alto da nossa viagem de carro pela Sicília – Stromboli foi nossa segunda parada na viagem, logo depois de Cefalù. É verdade que muita gente não vê graça na pequena vila, porque não há muito o que fazer. Mas a experiência é justamente essa: dormir em um vulcão ativo no meio do mar Mediterrâneo!

Subindo o vulcão até Sciara del Fuoco

O passeio mais importante de uma estada em Stromboli é a subida até a Sciara del Fuoco. A caminhada pode ser feita com ou sem guia e dura cerca de uma hora saindo do vilarejo. Saímos no final da tarde, uma hora antes do sol se pôr, para ver o espetáculo pertinho da cratera.

A medida que subimos o vulcão, a vila se afastava

A trilha não é difícil, apesar de em alguns momentos ser preciso pequenas paradas para recobrar o fôlego. É, pode ser cansativo subir na areia vulcânica. Muitas vezes, também foi preciso atenção redobrada nas pequenas passarelas beirando o precipício. A trilha, no entanto, era fácil de seguir.

Não se esqueça de levar lanterna, água, agasalho corta-vento (venta muito lá no alto!) e um tênis confortável para a trilha que sobe o vulcão.

Sciara del Fuoco: onde a lava desce até o mar

Finalmente, chegamos no área panorâmica de onde pudemos avistar a Sciara del Fuoco, a rampa onde desce a lava expelida pelo vulcão. Dali, a vista é estonteante. Imagine só sentir que a terra está viva e entra em ebulição a alguns metros de você. Entre um silêncio e outro, o show de luzes encanta: a lava que explode, treme a terra e corre soltando faíscas montanha abaixo, muitas vezes até encontrar o mar. Um deslumbre só. Provavelmente uma das coisas mais lindas que eu já vi na vida!

Stromboli em erupção

A partir do ponto de vista panorâmica é possível subir mais alguns metros, porém apenas com guia. Infelizmente, o acesso até Pizzo, na altura de 918 metros, estava fechado por conta das grandes explosões que aconteceram em julho de 2020.

Descemos a trilha em direção ao restaurante L’Osservatorio, de onde também é possível avistar as explosões – de uma distância um pouco maior, é claro. Mas a beleza e a magnitude do vulcão ainda encanta – mesmo de longe.

Restaurante L’Osservatorio: entre vinhos e lavas

Jantamos duas vezes no Restaurante L’Osservatorio, que tem um terraço com vista para o vulcão. Na primeira noite na vila, fomos direto ao restaurante para conhecer as famosas explosões, mesmo que de longe. O caminho da vila até o restaurante é basicamente uma estrada de terra sem iluminação alguma. Também não é tão perto assim: cerca de 1,5 km e pelo menos vinte minutos a pé. Ali, comemos pizza regada a um bom vinho da casa.

As maravilhosas praias de areia preta

São três diferentes praias de areia preta em Stromboli: Spiaggia Lunga, Ficogrande e Scari. Elas não possuem infra-estrutura alguma, como restaurantes e barracas. São ermas e vazias – e aí mora grande parte da beleza.

Strombolicchio: restos do primeiro vulcão

Da praia Ficogrande é possível avistar a ilha de Strombolicchio. Essa pequenina e inabitada ilha com um farol é, na verdade, o que sobrou da primeira formação do vulcão.

+ E já que o assunto são vulcões em erupção, vale a pena dar uma lida na experiência do Diego Arena, do blog Uma Viagem Diferente, nas ruínas de Pompeia. E já que estamos aos pés do vulcão Etna, vale dar um pulinho em Nápoles, com o pessoal do blog De lugar Nenhum, a apenas 25km dali!

Como chegar em Stromboli

A única maneira de chegar em Stromboli é de barco. Saímos do porto de Milazzo de ferry e a viagem demorou cerca de duas horas (cerca de 43 € ida e volta por pessoa). Os horários dos trajetos podem ser acessados no site Direct Ferries. Também é possível chegar a Stromboli via Napoli por ferry.

Stromboli: dicas de hospedagem

Nos hospedamos duas noites na pousada La Lampara, que também possui um dos restaurantes mais requisitados da cidade. Infelizmente, durante nossa viagem o restaurante estava fechado porque a cozinheira se acidentou alguns meses antes. De qualquer maneira, Carlo, o dono da pousada, era muito simpático e solícito (o dono de hotel mais simpático que encontramos nessa viagem, aliás!), os quartos eram limpos e confortáveis e o café da manhã tinha o verdadeiro café italiano feito na máquina (nada de café instantâneo).

Onde e o que comer em Stromboli?

A verdade é que as experiências gastronômicas dentro de Stromboli são muito limitadas. Tivemos algumas não muito boas, confesso. Mas eu recomendaria dois lugares:

Cannolo do Bar Ingrid: uma delícia!

Bar Ingrid: Perfeito para aquela pausa do café no meio do dia, o lugar oferece além de um bom café espresso, doces bem feitos como o cannolo. Tem uma vista bonita para o mar e fica ali, na frente da igreja. Difícil errar.

Ristorante da Zurro: O chefe com jeito excêntrico, que vai de mesa em mesa e te trata como cliente antigo, deixa a experiência no lugar mais interessante. São poucas mesas (melhor fazer reserva antes!) em um salão fechado e o menu muda diariamente com diferentes tipos de frutos do mar fresquinhos. Confie na criatividade do chefe e mergulhe na experiência! P.S.: Esse restaurante, aliás, foi uma ótima recomendação do Carlo, dono da pousada La Lampara.

Mais dicas úteis

Língua: Italiano
Moeda: Euro
Clima/Quando Visitar: De junho a outubro, quando o mar está calmo e os restaurantes e pousadas estão abertos em sua maioria. Nós visitamos em outubro e a temperatura era agradável, mas nada que um casaquinho resolvesse.
Visto para brasileiros: Dispensa visto por até 90 dias.

Stromboli foi nossa segunda parada na viagem de carro pela Sicília. A primeira parada foi Cefalù, uma pequena cidade medieval com uma bela (e cheia de lendas!) rocha gigante. Vale a pena incluir no roteiro de viagem!

Três Cumes de Lavaredo, nas Dolomitas: hiking nas montanhas escarpadas dos Alpes Italianos

Tre Cime - Trilha nos Alpes italianos, Dolomitas

Tão altas que, perto delas, nos sentimos minúsculos. As montanhas nos Alpes Italianos são um convite para trilhas exuberantes com cachoeiras, lagos de água verde esmeralda e cumes pertinho do céu. Há tempos, as Dolomitas povoavam meus sonhos… E, em um surto de final de semana, decidimos que era hora de, enfim, dar um pulinho até a Itália – afinal, as Dolomitas ficam a apenas 330km de Munique – e explorar essa beleza toda!

Para desbravar as Dolomitas, cadeia de montanhas reconhecida como Patrimônio da Humanidade pela Unesco (por conta de suas belezas naturais excepcionais!), optamos pela trilha circular com vista para os três famosos picos nos Alpes Italianos — Três Cumes de Lavaredo (ou Tre Cime di Lavaredo, em italiano; Drei Zinnen, em alemão). As Dolomitas são casa de 18 picos que crescem acima de 3 mil metros de altura.

Dá para ter ideia da magnificência desse lugar?

Não sei se dá para imaginar. Mas a gente sonha.

Hiking em Três Cumes de Lavaredo

Distância: 18,35 km
Tempo: 5h30 (com direito às paradas nos refúgios!)
Elevação: 1217m
Dificuldade: Fácil/Médio

A rota circular de hiking em Três Cumes de Lavaredo

Nossa trilha começou no vale Fischleintal (em italiano, Val Fiscalina), que pode ser alcançado de Sexten-Moos (em italiano, Sesto Moso) de ônibus ou carro. Estacionamos o carro em um parking em Fischleinboden e partimos a pé para a trilha.

As paisagens bucólicas da trilha para Tre Cime de Lavaredo
Vale Fischleintal: o começo da trilha para Tre Cime, nas Dolomitas
Vale Fischleintal: o começo da trilha para Tre Cime, nas Dolomitas

Enquanto caminhamos pelo vale Altensteintal, passamos pelo refúgio Talschluss, ainda no comecinho da trilha. Mais alguns metros e seguimos a trilha com sentido a  Drei-Zinnen-Hütte. Ali a subida começou!

Uma trilha com paisagens assim <3

Passamos por duas belas cachoeiras – onde você pode se refrescar, se tiver coragem. A segunda, “escondida” em um grande buraco, era particularmente encantadora.

Parece tão pequena, né? Mas olha só o tamanho da pessoa no canto inferior direito!

Enfim, chegamos na área com vista para os dois lagos verde cintilantes Bödensee (Laghi dei Piani, em italiano). Ali também estava o primeiro refúgio nas montanhas de verdade: o refúgio Drei-Zinnen (2.407 m), com a maravilhosa vista para os Três Cumes. Hora de um cappuccino e apreciar a beleza da paisagem!

Bödensee/Laghi dei Piani: incrivelmente verdes!

Seguimos a trilha 101, passando por Toblinger Riedl (ou Forcella di Toblin), e pelas belas encostas de Bödenknoten (ou Croda dei Piani) e Paternkofel (ou Monte Paterno). Dali era possível avistar outro pequeno lago de águas incrivelmente verde. A paisagem, por sua vez, era absurdamente cinza e até um pouco lunar.

Passamos pelo pequenino refúgio Büllelejoch (2.544 m) e a descida começou. Seguimos para o refúgio Zsigmondy-Comici, onde paramos para um pequeno almoço. A vista do lugar para o impressionante Einserkofel também valia alguns minutos extras para apreciação. Uma gigante e inóspita montanha cinza! Continuamos a descida com vista para o igualmente magnífico Zwölferkofel (em italiano, Cima Dodici) até chegar novamente no Vale Altensteintal.

Foram quase 20 quilômetros de uma das trilhas mais bonitas que já fiz e, apesar de torcer o tornozelo em uma queda na trilha cheia de pedras, valeu a pena!

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O que levar para a trilha

Caminho cheio de pedras e alguns obstáculos: prefira usar botas de trilha

Água e alguns snacks
Botas de trilha
Capa waterproof
Fleece
Protetor solar
Boné
GPS
* No topo da montanha o tempo pode mudar muito, muito rápido. Por isso, mesmo que a previsão do tempo garanta um dia ensolarado, não deixe de levar agasalho e calça na mochila.

Três Cumes de Lavaredo: onde se hospedar

Nos hospedamos em Sexten, na Pension im Wiesengrund, uma pensão simples com café da manhã, estacionamento e uma bela vista das montanhas, mas afastada da cidade. De manhãzinha seguimos de carro rumo ao vale Fischleintal.

Se você prefere um pouco mais de conforto, o Hotel Monika oferece spa com saunas finlandesas, piscina indoor, academia e bio sauna. Outra experiência interessante (e mais aventureira) é se hospedar no camping Caravan Park Sexten, com seus bangalôs de madeira (e kitchenette), banho turco e academia – e exatamente no lugar de onde sai a trilha!

Dica extra: alugue um carro!

Alugar um carro para viajar pelas Dolomitas é uma das melhores coisas que você pode fazer! Isso porque o caminho pela região é um parque de diversões para adultos, com pequenas cidades charmosas pelo caminho, estradas sinuosas e vistas de tirar o fôlego.

Lago de Garda: um final de semana em Riva del Garda

Sabe aquela vontade de escapar e fugir para um lugar de beleza idílica e desligar do resto do mundo? Um final de semana no Lago de Garda (ou Lago di Garda, em italiano) provavelmente é tudo o que você precisa!

Riva del Garda

Bem, pelo menos era tudo o que eu precisava.

Lago de Garda: diferenças entre norte e sul

Com águas incrivelmente cristalinas, o Lago de Garda está localizado no norte da Itália e é rodeado por encantadoras cidadezinhas – muitas delas com castelos!

É o maior lago da Itália e tem clima mediterrânico: palmeiras, oliveiras, laranjeiras e limoeiros crescem por ali. O visual é de tirar o fôlego – e muda bastante se você está na parte norte do lago ou na região sul.

Impressione-se com a altura das montanhas – como eu me impressionei!

Eu, pessoalmente, acho a região norte do lago muito mais bonita: as montanhas altíssimas encostam no lago, como um fiorde. Na região sul, o lago perde esse charme das montanhas.

O que fazer no Lago de Garda

Há uma infinidade de coisas no Lago de Garda. A principal atração turística definitivamente são os esportes aquáticos: os veleiros dominam a paisagem no verão. Windsurf e kite surf também são comuns.

Por outro lado, as paisagens maravilhosas do Lago oferecem trilhas e escaladas únicas. Os mais aventureiros (e sem medo de água fria) podem se aventurar no canyoning. Há também áreas onde é possível praticar mountain bike, golf e escaladas em vias ferratas.

De buenas na lagoa.

As pequenas cidades com casinhas de tons pastel e seus charmosos castelos também valem as visitas, claro.

Lago de Garda: pausa no passeio de bicicleta para olhar o mapa!

Lago de Garda no inverno

Visitar o Lago de Garda no inverno e no verão são experiências completamente diferentes. No verão, as cidades na beira do lago ficam lotadas de turistas e os esportes aquáticos estão por toda a parte. No inverno, grande parte dos restaurantes e hotéis estão fechados. Mas, nem tudo está perdido!

Lago de Garda no inverno
Lago de Garda no inverno: é paz que chama

Como Riva del Garda fica no meio do caminho entre onde eu moro (Rimini) e onde meu namorado mora (Munique), a cidade foi a escolhida para nosso romantic getaway. E, sinceramente, a escolha não poderia ter sido mais perfeita! Nos hospedamos em um hotel com spa e passamos o sábado inteirinho relaxando na jacuzzi e nas saunas. Domingo de manhã, partimos para explorar cada cantinho da cidade.

Homem em Lago de Garda, Riva del Garda.
O pensador.
Pequenos sinais de primavera.

E é por isso que o Lago de Garda pode ser um ótimo refúgio para descanso no inverno! As belezas do lugar continuam lá, intactas, enquanto as cidades estão vazias de turistas. No final de contas, todo atendimento – do restaurante ao hotel – é muito mais personalizado. Zero stress.

Os encantos de Riva del Garda

A arquitetura de Riva del Garda

Por conta da proximidade, Riva del Garda é um destino muito famoso entre os alemães (e isso pode render alguns momentos engraçados até). Também descobri que o lugar faz sucesso entre os dinamarqueses. Por isso, não faltam restaurantes com comida bávara e cervejas alemãs. Gardesana

Gardesana: a (coloque o seu superlativo de beleza preferido aqui) estrada italiana

Em Riva, decidimos passear de bicicleta até Limone pela antiga estrada, conhecida hoje como Sentiero del Ponale. Inaugurada em 1851, a estrada que liga Riva del Garda ao Valle di Ledro foi reaberta em 2004 apenas para pedestres e ciclistas. A estrada tambem oferece um panorama da Gardesana, construida nos anos 30, onde so circulam carros, e que ficou famosa por aparecer em James Bond, em Quantum of Solace.

A estrada antiga cravada nas pedras e considerada uma das mais belas do mundo, infelizmente, estava fechada (a previsao de reabertura é para 12 de abril de 2019).

As cachoeiras de Varone

Então, seguimos de bicicleta para a cachoeira de Varone – sem grandes expectativas, confesso. Pagamos os seis euros de entrada cada, um pouco descrentes. Mas, então, a surpresa!

As quedas d’água são fascinantes! A água cai sobre o cânion e impressiona. Para completar: uma dança de luzes coloridas faz o lugar ainda mais encantador.

Carnaval de Arco

Depois, seguimos até Arco, uma cidadezinha bem perto de Riva del Garda, onde acontecia um carnaval de rua para crianças. A cidadezinha cresceu ao redor de uma pedra com um castelo medieval no topo. Já é um bom motivo para conhecê-la, certo?

Onde comer

Escutamos a recomendação de um amigo que disse que a comida do Antiche Mura, em Riva del Garda, era maravilhosa. Fomos até lá e… O restaurante estava fechado! Eis uma das desvantagens de visitar Riva no inverno.

Seguimos então para a Osteria La Contrada e tivemos sim um jantar italiano como deve ser. O lugar era aconchegante, o serviço era simpático e o gnocchi de trufas estava delicioso!

Mas, se a Osteria é o lugar perfeito para um jantar curtido com calma, o Panem é o restaurante ideal para um bom almoço: o cardápio de lanches inspirados em diversas regiões da Itália é tentador. Escolhi o Friulano (com asìno – um dos queijos mais tradicionais de Friuli – mais fiocco di sauris, creme de cebola, pimentão em óleo) e o namorado foi de Ionio (uma versão peixe do panino). O problema ali foi o serviço, um pouco demorado.

Onde se hospedar em Riva del Garda

Como disse anteriormente, o melhor de visitar o Lago de Garda no inverno é aproveitar a beleza do lugar em meio à tranquilidade. Para completar a experiência, nos hospedamos em um spa hotel, o Hotel Parc Flora.

Área comum do Hotel Parc Flora, em Riva del Garda

O spa do lugar também foi uma boa surpresa. Pequeno, mas bem variado (o melhor spa de hotel que eu já vi até agora!): além dos clássicos jacuzzi, banho turco e sauna finlandesa, ele também contava com percurso Kneipp, cascata de gelo e duchas aromatizadas. Amei a ducha tropical de maracujá. hahaha

Infelizmente, não pude tirar fotos do pequeno spa porque haviam muitos alemães e, bem… alemães costumam ir à sauna pelados. Isso vale outro post, aliás!

Vou sentir falta do café da manhã do Hotel Parc Flora

O café da manhã do Hotel Parc Flora também foi uma delícia. Com um buffet farto de salgados e doces, cafés, espumante (!) e suco de laranja-vermelha fresquinho, feito ali na hora.

Aliás, desconfio que a explicação do café da manhã ser tão bom assim é porque eles também são donos de uma das melhores gelaterias da cidade, o Bar Gelateria Flora – que está localizado bem na frente do hotel. A gelateria é tão boa que estava lo-ta-da até mesmo com o clima frio. Se visitar o lugar, experimente o affogato e me conta o que achou!

Qual o custo de vida para morar na Itália?

Quanto custa morar na Itália - Malcesine no Lago di Garda

Um dos primeiros passos quando a gente decide mudar de país é calcular o custo de vida do lugar. Quando eu me mudei para a Itália, sinceramente não fazia ideia do que me esperava. Mergulhei de cabeça e, mesmo que essa tenha sido uma atitude extremamente ingênua, eu aprendi que as coisas sempre dão certo – e se não der a gente trabalha duro e faz dar. Se você pretende se mudar para o país e quer saber qual o custo de vida para morar na Itália, esse post é para você!

Quando deixei um emprego estável e uma carreira de repórter de uma grande editora para ver o mundo de lado de fora do escritório, não sabia muito bem o que viria depois. A verdade é que a maturidade veio em forma de boletos e na hora de lidar com burocracias em uma língua que não é a minha – é preciso fôlego e muita convicção para argumentar com italianos.

Também veio com a dificuldade que é entender como funciona o sistema de impostos quando você trabalha remotamente para empresas do Brasil e do Reino Unido, mas tem residência na Itália. Eu definitivamente me tornei uma pessoa muito mais forte e pé no chão com essa experiência.

But first things first, my dear!

Custo de vida na Itália x outros países europeus

A Itália é um país com custo de vida médio se comparado a outros países europeus. O custo de vida também varia, claro, de cidade para cidade. Milão é uma cidade cara, onde um quarto em casa compartilhada com outras pessoas, custa, em média, entre 600 e 700 euros por mês. Em Bologna, esse valor gira em torno de 400 a 500 euros.

Você perceberá que, não por acaso, a Itália é uma Blue Zone – áreas onde a população ultrapassa os 100 anos de idade. É possível comer bem e ter uma vida equilibrada com pouco.

Por aqui, reinam as pequenas empresas e comerciantes de bairro. As cooperativas também são o ponto forte da Emilia-Romagna. Buy Local é um movimento que existe desde sempre na Itália: eles valorizam de verdade pequenos produtores e negócios de bairro.

Quanto custa morar na Itália: tabela de gastos

É claro que o custo de vida é relativo. Ele vai depender da região onde você mora, do tipo de alimento (e do vinho! <3) que costuma consumir, dos seus hobbies e até se você é uma pessoa friorenta. haha

 

Viela de San Marino
Vielinhas para todos os lados

Abaixo, você terá uma ideia dos meus gastos básicos em uma cidade de médio porte na Itália: Rimini tem cerca de 300 mil habitantes, muita variedade de supermercados e está a 150 km de Bologna (cidade com um bom aeroporto com conexões para toda a Europa). Mas, é bom saber: os preços para aluguel crescem em escala exponencial no verão – e esses valores não entrarão na conta, porque no verão eu viajo – ufa! 

Eu não administro meu dinheiro por meio de budget, mas tenho uma planilha e sei para onde cada centavo vai. Isso de certa maneira me ajuda a ter consciência do que é necessidade, do que é válvula de escape (escolhas emocionais necessárias, de vez em quando) e de onde eu preciso prestar atenção para cortar custos. Meus money dials são comida, produtos de beleza (estou tentando reduzir, admito) e viagens – no geral, meu dinheiro é bem gasto com experiências, e não bens de consumo.

Aqui, segue uma lista dos meus gastos fixos e básicos – ou seja, meu custo de vida na Itália. E isso, claro, é pessoal e varia, mas talvez dê uma luz para quem pretende se mudar para cá em breve.

Aluguel

Pago 300€ em casa compartilhada com mais uma pessoa. Apesar de afastado do centro (3km), o apartamento está bem localizado, a duas quadras da praia. O contrato é de setembro a maio, uma vez que o apartamento é alugado por temporada.

Paguei um caução de 200€ na entrada, mas esse valor em outros lugares pode ser de até três vezes o aluguel. Também paguei  50€  pelo contrato + uma taxa de limpeza. Um monolocale (studio) em Rimini custa entre 500 a 600€ por mês.

Alimentação: o paraíso dos hortifrutis

Eu gasto cerca de 50€ por semana em supermercado – em média 200€ por mês. Mas, sinceramente, eu enfio o pé na jaca. Também é importante considerar que a carne é um alimento caro (a carne de frango custa entre 9 e 13€/kg) e um bom bife… Bem, nem sei quanto custa porque não como mais.

Se você é vegetariano, aqui é o seu lugar!

A pasta é muito barata (em média, a pasta Barilla custa 50-70 cents de euro). Uma passata rústica de tomate custa entre 60 cents e 1€ pasta fresca custa, no mínimo, 18€/kg para massas simples como gnocchi, 38€/kg para pastas recheadas, como tortellini.

O vinho também pode ser muito barato: no dia a dia,  sempre vou de Falanghina (para frutos do mar) e Sangiovese (pastas e carnes), que custam SÓ dois euros. Coisa boa!

E o que falar dos hortifruti? Espalhados pela cidade, eles são quase como um parque de diversões para gente grande: a maior parte dos alimentos tem preço tabelado de 1 euro/kg. Ou seja, é um estímulo e tanto para você ser uma pessoa saudável! Se você viver de salada, pode diminuir os gastos de supermercado para 10 euros por semana. E é exatamente o que eu pretendo fazer.

Os preços nos hortifrutis são muitas vezes 1/3 dos preços cobrados nos supermercados. Por causa do inverno, quando a oferta de frutas, legumes e verduras cai bastante, os italianos costumam criar um estoque de vegetais congelados. Compram os alimentos frescos na temporada e congelam para consumir no inverno. É uma ótima maneira de ter o controle sobre o consumo.

Banco

Aqui na Europa, tenho acesso a duas contas bancárias. A conta italiana que foi aberta na Posta Italiana e custa 10 euros por ano, e o Revolut, no qual posso fazer transações e saques gratuitos em toda a Europa (com limite de 6 mil euros por mês), além de poder receber em libras esterlinas e comprar euros quando a cotação me favorecer. Também uso o Transferwise para enviar dinheiro para a minha conta do Brasil sempre que necessário.

Os juros são extremamente baixos e, por isso, não faz muito sentido ter poupança ou investimentos em títulos do tesouro, por exemplo. O dinheiro fica parado e não rende. Mas ainda estou estudando boas formas de investimento na Europa – quem sabe o assunto não vira tema para um futuro post?

Transporte

Aqui, o bilhete unitário custa 1,70€ e a opção mensal custa 28€. Transporte é muito barato na Itália. Em Munique (Alemanha), por exemplo, o bilhete custa o dobro do preço.

Andar de trem também é uma pechincha por aqui. O trecho Rimini – Bologna pode ser encontrado por até 10 euros. Rimini – Florença sai por 13€. E ainda existe o Flixbus (linha de ônibus econômica com trechos por toda a Europa) como opção. Infelizmente, os horários dos ônibus dentro da cidade são ruins (o transporte aqui muitas vezes pára cedo), porém os preços são bons.

Despesas fixas: gás, luz, água e telefone

Não temos telefone em casa (aliás, quem ainda tem?). Por isso, pago 10 euros por mês para ativar meu plano de celular com 4G ilimitado na Tim (internet mobile na Itália é algo realmente impressionante – é rápida, barata e ilimitada).

Já o boleto de luz é pago a cada três meses e sai em média por 35€ por pessoa. O boleto de água é bimestral e sai em média por 46€.

O gás, sim, pode ser a grande surpresa! É muito difícil sobreviver no inverno se a sua casa não tem boa vedação – como é o caso da minha, construída para ser um oásis de frescor durante o verão.

Gás talvez seja o item mais caro entre as despesas de casa. Geralmente, ligamos o aquecimento em novembro e desligamos em meados de abril. Ou seja, cerca de seis meses pagamos a conta de gás mais cara.

Quando o aquecedor está desligado, o gasto de gás gira em torno de 35 euros a cada três meses. Aí mora a maior dica de todas: em apartamentos com aquecimento autônomo, é possível controlar o horário em que a caldaia ficará ligada. Nós, por exemplo, deixamos das 20h às 22h e das 8h às 9h. Assim, a casa sempre fica quentinha e não temos surpresas na conta.

Mas, como nada é perfeito, minha última conta de gás durante o inverno (com gastos de novembro a janeiro) foi de estratosféricos 232,5€. Ouch.

Entretenimento

Isso varia de acordo com seu estilo de vida, claro. Meu hobby é viajar, então sempre que posso dou um pulinho em outra cidade (San Marino é aqui do lado!), faço um bate e volta… Enfim, aqui é onde eu mais gasto. Então 100 euros por mês é um valor OK para entretenimento se eu não viajo (conto aqui pequenos luxos, como roupas, aquele cafezinho no centro da cidade com uma amiga e aperitivi com os amigos).

A Netflix na Europa é mais cara do que no Brasil: aqui, tem preço mínimo de 16,99 € enquanto no Brasil é R$ 19,90. E, por isso, pago a Netflix do Brasil com meu cartão de crédito brasileiro (ou seja, cerca de 3€!). Baita diferença, né?

Mas e a saúde, Mariana?

Sistema Sanitario Nazionale (SNN), sistema de saúde italiano, não é 100% gratuito, mas é acessível e de altíssima qualidade. Não é um sistema que te obriga a ter um seguro de saúde, como na Alemanha.

Na Itália, cada pessoa possui um médico de família e cada vez que você faz consulta com um especialista que não seja o seu médico de família deve pagar o ticket sanitário, que custa a partir de 25€.  Alguns exames e cirurgias também podem ser cobrados por meio do ticket sanitário. Enfim, esses custos só entram na planilha quando são usados de fato, né?

Ainda não tive nenhuma experiência no SNN (pretendo marcar em breve para fazer um check-up), mas acompanhei meu tio em Trento e o serviço é realmente muito bom. Mas é aquela coisa: no norte do país, os serviços públicos tem fama de serem mais eficientes do que no sul da Itália, então a região que você pretende morar também afetará nesses gastos.

Quanto custa viver na Italia: tabela de gastos

Resumindo a conta, na ponta do lápis meus gastos fixos mensais e por pessoa ficam assim:

Aluguel: 300 €
Transporte: 28 €
Alimentação: 200 €
Telefone: 10 €
Gás (inverno): 38,75 €
Água: 11,5 €
Eletricidade: 11,60 €
Taxa bancária: 0,83 €
Entretenimento: 100 €
Netflix: 3€

Total: 703,68€
Ou seja, meu custo de vida em Rimini é cerca de 3 mil reais.

Pretende mudar de país? Eu recomendo ter um colchão de segurança: tenha em uma conta doze vezes o seu custo de vida no novo país. O tempo de adaptação pode demorar e os custos de mudança também são altos – melhor estar sempre preparado. Também não deixe de levar em consideração as flutuações da moeda.

+ Com saudades da Itália? Viaje sem sair do lugar preparando uma noite italiana em casa!

Se você pretende reconhecer a cidadania italiana, também contei aqui o passo a passo do meu processo de reconhecimento sem a ajuda de assessoria.

Rimini, um novo lar para chamar de meu!

Fachada de edifício antigo em Rimini, Itália

As notícias da Terra da Bota dão conta de que, sim, eu voltei! Em letras garrafais e com muita emoção! Não, não para` Trento – onde reconheci a cidadania italiana. Minha nova casa é menos montanha e mais mar. Os Alpes viraram passado e agora eu chamo de lar Rimini, esse balneário super charmoso na riviera romagnola. Aliás, se você quer saber quanto custa viver na Itália, dá uma olhada nesse post.

Marina de Rimini, itália
A marina de Rimini é o lugar perfeito para aquele passeio de fim de tarde

Pelos próximos dois anos morarei em Rimini, cidade muito especial para mim por uma única razão: é a terra que meu bisavô abandonou em 1899 para se aventurar no Brasil. Há cerca de trinta anos meu avô visitou a cidade para entrar em contato com os primos que ficaram. Não conseguiu. E agora eu estou aqui com essa maravilhosa missão!

Universidade de Bologna em Rimini

O outro motivo é que há uma semana comecei um master em Fashion Culture and Management na Università di Bologna. Isso significa que vem aí pela frente uma leva de posts sobre estudar fora, declaração de valor e como enfrentar os monstros da burocracia italiana.

Se você pretende fazer uma graduação ou mestrado na Itália, esses artigos poderão ser muito úteis.

Também quero fazer alguns posts sobre o master, que tem matérias interessantes no currículo, como e-commerce e made in Italy – que inclui visitas a escritórios de grandes marcas italianas, tipo Moschino. E, se eu perder a vergonha na cara, quem sabe não rolem também alguns vlogs contando toda essa experiência? Coragem, tem que ter coragem!

O que fazer em Rimini?

Rimini é uma comuna com quase 140 mil habitantes e está localizada na Emilia Romagna – que, por sua vez, possui como capital Bologna, também considerada capital gastronômica da Itália. Já Rimini ficou famosa nos anos 70 por ser um balneário internacional – a cidade fica lo-ta-da de russos no verão.

Praia de Rimini, Itália
O forte de Rimini não são as praias – mas o clima praiano é uma delícia!

O balneário é uma mistura de Ibiza com Santos. Em outras palavras: muitas festas, praias feias e lotadas no verão. Essa cidade arrumadinha e badalada, no entanto, possui outros atrativos além de praias e festas mucho locas, acredite.

Rimini é recheada de pontos interessantes para quem gosta de história. Também possui parques temáticos curiosos, como o Italia in Miniatura, bom para levar as crianças (de idade e coração). Melhor: Rimini está localizada pertinho de San Marino, um dos menores países do mundo, e definitivamente uma experiência para riscar da bucket list.

Vem comigo que eu vou te mostrar o centro storico, cantinho mais especial da cidade e onde estão espalhados os vários campi da Università di Bologna. Assim como outras cidades italianas, provavelmente você ficará encantado com a ideia de passear por um lugar e, de repente, encontrar um muro, prédio ou monumento com mais de dois mil anos de idade.

Principais pontos turísticos de Rimini: Arco de Augusto

É, juntamente com a Ponte de Tibério, meu monumento preferido na cidade. O arco marca a entrada na antiga cidade pela via Flaminia, que ligava Roma a Rimini, já em 27 a.C. Gosto de sentar na sorveteria que tem em frente, tomar um milk shake de cioccolato e ver o tempo passar.

Arco D'Augusto em Rimini, Itália
Arco D’Augusto: não é uma belezinha?

Quanta gente interessante já não passou por ali? E quantas boas histórias devem ter se perdido no tempo! Há mais de dois mil anos o arco resiste a guerras e imperadores.  Tempo é definitivamente um conceito muito estranho e esse arco é a prova disso.

Domus del Chirurgo

Passei diversas vezes por ali até que um dia percebi que a construção de tijolinhos com paredes de vidro guardava uma joia arqueológica. Bem no meio de uma praça está protegida o que um dia foi a casa de um cirurgião no século 2 d.C. Uma vez que o lugar estava bem conservado, foi possível reconstruir o ambiente e transformá-lo em uma espécie de museu.

E por que seria esta a casa de um cirurgião? Bem, no local foram encontrados cerca de 150 instrumentos cirúrgicos. Você ficará encantado com o mosaico do chão da casa do cirurgião e encontrará até uma ossada. A entrada custa 6 euros.

Ponte de Tibério

É impressionante o grau de preservação da Ponte de Tibério encomendada pelo imperador Augusto, em 14 d.C., mas só concluída sete anos depois, em 21 d.C. pelo imperador Tibério.

É também é impressionante que a ponte tenha sobrevivido a terremotos, a guerra entre godos e bizantinos e até uma tentativa de destruição do exército nazi na Segunda Guerra Mundial. Da Ponte de Tibério saíam as estradas romanas para o norte da Itália, via Emilia e via Popilia.

Ponte de Tibério em Rimini, Itália
A Ponte de Tibério é assim… Indestrutível

Anfiteatro romano

Fiquei em êxtase quando descobri que havia um anfiteatro romano na cidade, e logo lembrei do super bem conservado que existe em Verona. No entanto, a versão de Rimini – datada do século 2 d.C. – está em ruínas. Ali aconteciam espetáculos com gladiadores com até 12 mil espectadores.

Infelizmente, hoje o que existe é uma grade que evita que as pessoas entrem no lugar e mais nada. No centro da cidade, também existem as ruínas do teatro romano e o Castel Sismondo. O interessante é ver como a cidade se reinventa e se adequa às ruínas do próprio passado. Sim, eu tenho uma fixação por ruínas!

E não deixe de provar: a piadina romagnola!

Cassone romagnolo em Rimini, Itália
Cassone romagnolo: uma das maravilhas da culinária italiana

E como cada região da Itália possui sua própria gastronomia, em Rimini não poderia ser diferente. Talvez esse valha um post a parte, mas já adianto: se estiver em Rimini, não deixe de provar o cassone e a piadina. Ambos são uma espécie de wrap recheados com mozzarela, prosciutto, speck, omelete ou salada. É uma delícia e serve como um lanche bem levinho.

Piadina del Porto, em Rimini, Itália
Piadina del Porto: um dos melhores lugares para provar piadina e cassone

Minha dica é provar esse prato no La Piadina del Porto. É uma portinha bem simples em frente à marina e com aquela combinação que a gente gosta: bom sabor, preço justo e atendimento simpático.

Como chegar de Bologna a Rimini: shuttle do aeroporto e trem

duas maneiras bem fáceis de chegar a Rimini saindo do aeroporto de Bologna. A primeira e mais prática é por meio do shuttle que sai do aeroporto de Bologna e vai até a estação ferroviária de Rimini (e também pára na Via Fada), bem pertinho do centro. Durante a alta temporada (verão), o shuttle também oferece paradas em diversas praias, como Bellariva, Riccione e Miramare. A dica é comprar a passagem com antecedência online pelo preço de €20 (é possível comprar a passagem com o motorista por €25).

Há ainda a promoção de €1 para horários diferenciados, da saída do primeiro e do último ônibus do trajeto. No entanto, é preciso comprar a passagem com pelo menos quinze dias de antecedência. O trajeto Aeroporto de Bologna- Estação Ferroviária de Rimini dura cerca de uma hora e meia.

Outra maneira de chegar em Rimini é pegando um ônibus do aeroporto de Bologna até a estação de trem (a passagem custa cerca de €6) e, em seguida, pegando um trem em direção a Rimini (a passagem custa a partir de € 9,85). O tempo do trajeto pode variar, mas o mínimo previsto é de duas horas no total.

+ Conheça San Marino, o pequeno país a menos de 20km de Rimini!

Cinque Terre: dicas para conhecer esse pedacinho de céu na Itália

Corniglia, em Cinque Terre, na Itália. Foto: Mariana Gabellini.

Uma pitadinha de tons pastel, muitas flores (ah, a primavera!) e casinhas construídas em encostas rochosas onde batem as ondas do mar Mediterrâneo. Eis uma das descrições possíveis para as cinco vilas que formam a famosa Cinque Terre, no norte da Itália,  próxima a Pisa (cerca de 90km) e Milão (220km). O nome delas? Monterosso, Vernazza, Corniglia, Manarola e Riomaggiore.

O charme das pequenas vilas, no entanto, vai muito além: elas são o tipo de lugar onde você pode respirar um pouco da perfumada dolce vita italiana.

Bons restaurantes, um mar de tirar o fôlego e roupas no varal secando ao sol despretensiosamente. Tanta beleza só poderia ser tutelada pela Unesco como Patrimônio Mundial da Humanidade! Na dúvida sobre o que fazer em Cinque Terre? Vem comigo!

Essa foi minha segunda vez nas terre e a passagem pelas cinco vilas fez parte de uma road trip com minha família durante o final de abril e começo de maio – o que significa temperaturas amenas e, ah que beleza, menos turistas. Cinque Terre é, na minha opinião, um desses passeios imperdíveis para quem visita pela primeira vez a Itália.

Como preparar o roteiro em Cinque Terre

Pois bem, em uma manhã de sábado fomos de carro até La Spezia e deixamos o veículo em um estacionamento público (0,80 centavos/hora). De lá, saímos de trem rumo a última terre, Monterosso al Mare.

Erro: optamos por comprar um bilhete para cada trajeto, que custo cerca de dois euros. E, a cada viagem nova entre as terre, menos dois euros na carteira. O ideal é comprar o bilhete que dura o dia todo e não há limite de trechos. O Cinque Terre Card custa 12 euros.

Monterosso é a única terre em que é possível jogar a canga sob a areia e tomar sol na praia. De lá, seguimos para Vernazza.

Além do trem, há a possibilidade de circular entre as pequenas vilas por trilhas – mas eu, infelizmente, nas duas vezes que fui não pude fazer o passeio. É que, devido às chuvas, é comum acontecerem desabamentos na região e, então, as trilhas ficam interditadas. Também é importante lembrar que, para entrar nas trilhas, é preciso ter em mãos o Cinque Terre Card. No total, são 12 km de caminhos.  Há ainda a possibilidade de fazer o passeio de barco.

 

Monterosso al Mare, em Cinque Terre. Foto: Mariana Gabellini.
Monterosso al Mare, em Cinque Terre: prepare sua canga!

Cinque Terre: onde se hospedar?

Localizada no norte do país, ela está próxima de Pisa. Separe pelo menos um dia inteiro se quiser conhecer as cidades com relativa calma. Não vale a pena fazer um bate e volta – é cansativo demais. Melhor se hospedar em uma das terre ou, se achar as diárias caríssimas, opte por uma cidade próxima.

Minha família e eu decidimos ficar em um camping em Marina di Massa – o que depois descobrimos ser uma região não tão famosa entre os turistas estrangeiros, mas com lugares interessantes para visitar, como as montanhas de mármore de Carrara. E que valem outro post!

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Riomaggiore, em Cinque Terre, na Itália
Um pedacinho de Riomaggiore, em Cinque Terre

Cinque Terre gourmet: não deixe de experimentar…

Basicamente, o passeio pelas terre consiste em circular entre as casas coloridas, tomar um gelato e degustar um ou outro petisco tradicional da região. Os frutos do mar fazem especialmente sucesso e, quando estiver em Monterosso ou Riomaggiore não deixe de provar o cone de frutos do mar, com calamares, camarão e peixes fritos bem temperadinhos com limão. Ah!

Mar de Cinque Terre
Esse Mediterrâneo não está para brincadeira, não!

Vaso de flor na janela
Sobre a beleza e a simplicidade

Há também cemitérios, castelos e estátuas que explicam um pouquinho sobre a história desse lugar tão especial. Mas, ah, o gostoso mesmo é passar por ali e aproveitar um dia bonito. Simples assim.

Monterosso al Mare, Cinque Terre, na Itália
Tons pastel por todos os lados!

 

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Mais um pouquinho de Monterosso al Mare

Fim do passeio: o pôr-do-sol incrível em Riomaggiore

Quando já tiver passado por todas as vilas, provavelmente a noite estará caindo – e o cansaço, acredite, pesando. Por isso, um pouco antes do pôr-do-sol pegue um trem rumo Riomaggiore, a terre mais próxima de La Spezia. Quando chegar lá, dispute por um lugarzinho para sentar nas rochas à beira-mar e assista o sol caindo. Em silêncio.

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O pôr do sol em Riomaggiore é de tirar o fôlego. Mesmo.

Cidadania italiana: passo a passo para o reconhecimento

Cidadania italiana: passo a passo para conquistar o passaporte europeu

Neta de italiana, no final de 2014 decidi que era hora de reconhecer a cidadania italiana. Questão de orgulho para a nonna e também de portas que se abririam com o passaporte bordô  – como uma melhor qualidade de vida em cidades mais seguras (aqui eu conto sobre o custo de vida em Rimini, na Itália – com tabela de gastos!) e a possibilidade de fazer um master pagando as taxas para cidadão europeu (mais baixas que para um estrangeiro), por exemplo.

Pois bem, eu sabia que o processo de reconhecimento de cidadania era um pouco burocrático e não estava disposta a pagar pelos serviços de uma assessoria. Para piorar: o processo tem fama tão aterrorizante que o pessoal costuma chamar de saga por causa das dificuldades que aparecem no caminho.

Recentemente, eu descobri que a saga para um mestrado na Itália é muito mais complicada do que reconhecer a própria cidadania – mas isso é assunto para outro post. Para quem quer entrar na saga também, aqui vai o meu relato! Pre-pa-ra porque o post é grande. haha

+ Você também poderá se interessar pelo post Quanto custa viver na Itália? 

AFINAL, QUEM TEM DIREITO À CIDADANIA ITALIANA?

A cidadania italiana não possui limites de gerações. Ou seja, se você possui algum ascendente italiano, provavelmente você também tem direito à cidadania. Eu digo provavelmente porque há dois casos muito comuns em que é preciso ter atenção:

  1. Existe mulher na sua linha de ascendentes? Para ter direito ao reconhecimento pela via administrativa, o filho dela deve ter nascido após 1948. O filho nasceu antes? Calma, nem tudo está perdido: nesse caso há a possibilidade de entrar com o pedido de reconhecimento na justiça italiana. Há um grupo no Facebook que dá dicas só para esse tipo de caso.
  2. Se o seu antenato (ancestral italiano que vai te passar a cidadania) é trentino.

COMO RECONHECER A CIDADANIA ITALIANA?

duas formas para fazer o reconhecimento: no consulado italiano no Brasil, onde dependendo do estado pode levar mais de dez anos até a conclusão do processo, ou fixando residência em um comune (município) na Itália, o que leva, em média, três meses. Optei pela segunda opção.

A MINHA HISTÓRIA

Quer um conselho? Aprenda com os meus erros. Você vai ver que foram muitos.

PRIMEIRA PARTE: BRASIL

1. JUNTAR OS DOCUMENTOS

É preciso ter todas as certidões de nascimento e casamento suas até o seu antenato. Alguns comunes cobram também certidões de óbito – então é preciso se informar diretamente com o lugar onde fará o processo. O primeiro passo foi conseguir a certidão de nascimento da minha avó no comune em que ela nasceu lá na Itália – já que eu já sabia onde estavam todas as outras certidões.

Também emiti todas as certidões brasileiras em inteiro teor e comparei detalhadamente datas e grafias de nomes de cada uma. Erros em datas geralmente não são aceitos pelos comunes, enquanto erros ortográficos são discutíveis e devem ser verificados com o setor do comune que fará o seu processo. No meu caso, constatei vários erros ortográficos não comprometedores, tipo minha bisa Thereza que virou Teresa e meu biso Giuseppe  que virou José.

2. LEGALIZAÇÃO NO ERESP

Todas as certidões brasileiras, que eram do estado de São Paulo, deveriam ser legalizados pelo Eresp. Mas  eu dei azar (lógico!) e o Eresp decidiu mudar de endereço bem nessa época. Resultado: minha irmã, coitada, pegou um ônibus até Brasília para legalizar meus documentos diretamente no Ministério das Relações Exteriores. Há despachantes que fazem esse tipo de serviço, mas caso você more em São Paulo fique feliz em saber que o Eresp já voltou a funcionar normalmente! Ufa.

3. TRADUÇÃO PARA O ITALIANO

Para o consulado italiano de São Paulo as traduções não precisam ser feitas por um tradutor juramentado. Optei por fazer mesmo assim, já que apesar de mais caras, os tradutores são reconhecidos pelo órgão e, bom, melhor precavir (tradutores também erram, viu?!).  Mandei os documentos traduzidos para o responsável pelo meu processo na Itália e ele disse que estava tudo ok.

4.1 TENTATIVAS DE AGENDAMENTO NO CONSULADO

Bem, então no começo de janeiro e eu já estava com todas as traduções feitas. Só faltava legalizá-las no consulado italiano e embarcar para a Itália em março.  ATENÇÃO: a legalização consular era necessária antes da Convenção de Haia. Hoje essa legalização foi substituída pelo apostilamento (veja mais abaixo).

Continuando…
Tinha dois meses para fazer a legalização consular. Tempo de sobra, certo? ERRADO. Fui para a Itália e voltei sem conseguir o tal do agendamento. O método de agendamento mudou TRÊS VEZES enquanto eu tentava agendar. Durante seis meses, entrei todos os dias no site do consulado de São Paulo à 0h de Roma, como manda o figurino. Não rolou.

Então, meu pai, que morava em Recife há mais de um ano e é o filho da italiana, foi até o Consulado em Pernambuco e perguntou se os documentos poderiam ser legalizados lá. A funcionária disse que sim, contanto que eu apresentasse traduções de um tradutor reconhecido por aquele consulado e eu estivesse presencialmente lá.

Voltei da Itália para São Paulo e, com esperança do fim da saga brasileira, fui até Recife. Lá, o atendimento é agendado via e-mail – que, por acaso, eles não respondem nunca. Fui três vezes pessoalmente, até ela me dizer que os meus documentos pessoais deveriam ser emitidos em Pernambuco.

Mudei meu título de eleitor, tentei abrir conta em banco. Depois, ela disse que os documentos deveriam ser traduzidos por um tradutor de Pernambuco. Depois de traduzidos, então a funcionária chamada Paula (um beijo para você) disse que EU deveria morar há mais de um ano em Recife para ter esse direito.

Gastei MUITO dinheiro e tempo porque a funcionária passou informações erradas o tempo todo. Voltei para São Paulo. Entrei no grupo Cidadania Área Livre, no Facebook, e lá o pessoal costuma avisar quando vagas são abertas. Certo dia, enquanto mexia no celular e tomava banho ao mesmo tempo (olha o nível de desespero!) PLIM um ser humano bem especial do grupo avisou que o Consulado abriu vagas fora do horário de sempre. Consegui o agendamento depois de seis meses e alguns milhares de quilômetros rodados – e muitas dilmas a menos!

4.2 LEGALIZAÇÃO NO CONSULADO ITALIANO

Cheguei no Consulado às 7h10 da manhã e a fila já era grande. Meu agendamento estava marcado para às 11h. Mas depois de 20 minutos fui atendida! Levei um comprovante de endereço em meu nome. Também aproveitei para tirar o Codice Fiscale, o CPF italiano, e queimei uma etapa a ser feita na Itália. Paguei com o cartão de débito, mas… OPS!

O funcionário achou um erro de data em uma das certidões.

Erro que nem eu, nem a tradutora, nem o funcionário do comune vimos! Então o cônsul deixou que eu voltasse outro dia, sem ter que enfrentar o agendamento novamente, com a certidão correta e uma nova tradução, para o consulado legalizar o documento.

MAIS GASTOS! Tive que discutir com o cartório localizado a quase 500km de distância de São Paulo, porque o erro de digitação foi deles (a data escrita por extenso era diferente da data em numeral). Novo documento, nova legalização no Eresp, nova tradução para o italiano e nova legalização no Consultado. Mas depois, enfim, eu estava pronta para ir para a Itália! A saga então muda de cenário e continua no bel paese.

ATUALIZAÇÃO: A LEGALIZAÇÃO CONSULAR FOI SUBSTITUÍDA PELO APOSTILAMENTO!

Se você está no processo de busca e legalização dos documentos, provavelmente já leu sobre a Apostila de Haia, um acordo entre os países signatários que facilita o reconhecimento de documentos públicos no exterior. Sabe aquele sufoco que eu passei tentando agendar a legalização no consulado italiano? Isso não existe mais.

O Brasil assinou o acordo e desde o dia 14 de agosto de 2016 a legalização de documentos para reconhecimento da cidadania italiana na Itália deixou de ser feita no consulado italiano no Brasil e passou a ser feita em cartórios específicos das capitais de cada estado. Devem ser apostilados o documento original e sua versão juramentada, ok? Mais: o preço do apostilamento varia de estado para estado.

SEGUNDA FASE: RECONHECER A CIDADANIA NA ITÁLIA SEM ASSESSORIA

A segunda fase do reconhecimento da cidadania italiana não é mais fácil do que a primeira, acredite. A burocracia italiana é um caos e cada comune/oficial do comune enxerga a lei de uma maneira. O segredo de passar por essa etapa sem traumas (se você for fazer sem a ajuda de uma assessoria, claro) é ter conhecimentos em língua italiana intermediária e conhecer MUITO bem as leis – e ter todas as leis impressas, porque, acredite, você terá que argumentar com os oficiais o tempo todo.

Para reconhecer a cidadania italiana na Itália, você deve ser residente no país (mesmo que por apenas três meses). Eu fiz o processo em Trento e fiquei na casa de tios, por isso não tive que negociar com o dono do imóvel para ceder documentos.

Esse passo a passo diz respeito a Trento mas, como eu disse, cada comune faz como quer.

Minha irmã também reconheceu a cidadania italiana em Trento e mesmo assim o processo dela foi diferente. Em outras palavras: cada pessoa, um perrengue. Ah, a vida: essa coisa bonita.

1. CIDADANIA ITALIANA E A DECLARAÇÃO DE PRESENÇA

Se você não entrou na Europa pela Itália (eu entrei por Madrid), e, portanto, não possui o carimbo italiano no passaporte,  o primeiro passo é fazer em até 48 horas a declaração de presença na Questura (delegacia). Em Trento, ela também é feita no Ufficio Cinforme (um escritório de apoio aos imigrantes que te ajuda até a preencher o Permesso di Soggiorno, permissão para ficar na Itália se o processo excede os 3 meses permitidos por lei para turistas!).

Leve passaporte original, seguro saúde (eu levei o CDAM, um seguro saúde para brasileiros válido por um ano em território italiano), a carta de hospitalidade e comprovação de meios financeiros.

2. CESSIONE DI FABBRICATO

É um documento preenchido pelo proprietário do imóvel que deve ser feito na Questura em até 48 horas. E é importantíssimo para o pedido de residência.

3. PEDIDO DE RESIDÊNCIA

É uma das partes mais complicadas no processo de reconhecimento de cidadania na Itália. O pedido de residência deve ser feito em até 7 dias da sua chegada na Itália, mas quanto antes melhor! Leve ao comune (prefeitura) a cessione di fabricatto, contrato de aluguel (se possuir), passaporte com carimbo ou a declaração de presença, cópia de identidade do proprietário.

Talvez nessa parte você tenha que discutir um pouco e até leve um chá de cadeira. Mas, lembre-se: esteja com as leis impressas em mãos. E fique tranquilo, italianos gritam mesmo… Não leve para o lado pessoal o mau humor alheio. Depois dessa etapa, você deverá aguardar o vigile (policial) passar na sua residência e confirmá-la para que seja feita a próxima etapa do processo.

4. VISITA DO VIGILE

O vigile passou duas semanas depois, em uma terça-feira de manhã. Fez perguntas como: “quantos cômodos a casa possui?”, “quantas pessoas moram aqui?”, “qual o motivo de você ter se mudado para cá?” e “como você se sustenta?”. A melhor resposta: a verdade.

Em menos de 15 minutos, ele foi embora. Agora, era só aguardar a confirmação da residência (alguns comunes aceitam receber os documentos para o processo de reconhecimento de cidadania italiana sem a confirmação de residência, mas esse não é o caso de Trento).

5. A ENTREGA DOS DOCUMENTOS NO COMUNE

Trento possui um setor especialmente voltado para o reconhecimento de cidadania italiana.
1.Isso significa que alguns oficiais só trabalham com reconhecimento.
2.Mas isso não significa que eles conheçam as leis. Sério.

Demorou algumas semanas para que um oficial aceitasse me atender. Quando me atenderam, olharam todos os documentos e pediram uma nova certidão de nascimento da minha avó. Fui até o comune de nascimento dela, a 150km, e lá me informaram que quem deveria ter feito o pedido diretamente era o oficial de Trento.

Com todos os documentos em mãos, a oficial de Trento pediu 15 dias para analisar meus papéis. Eu ia visitá-la uma vez por semana e ela sempre dizia que não tinha notícias para me dar. Três dias antes de expirar meus três meses como turista, gastei cerca de 160 euros para fazer o permesso di soggiorno. Dois dias depois ela me ligou e disse que eu deveria passar no Comune para assinar os documentos (o Consulado Italiano já havia enviado a mancata di non rinuncia e o síndaco já havia assinado meus documentos). Gastei 160 euros à toa.

Traduzindo…
Mancata di non rinuncia: a carta que o Consulado Italiano Geral no Brasil envia ao comune informando que nem você nem seus antepassados renunciaram a cidadania italiana.
Síndaco: tem a mesma função que um prefeito no Comune.

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6. ENFIM, RG E PASSAPORTE ITALIANO

Para fazer o RG é muito simples. Caso você opte pela carteira de identidade eletrônica, você deve ligar no Comune e marcar uma data. Eles tiram a foto na hora e o documento também fica pronto em poucos minutos. Custa 25 euros. Há a opção do RG em papel e que custa 5 euros, mas ela não é bem vista nos aeroportos europeus, porque é fácil de falsificar. Um primo teve problemas com ela em um aeroporto alemão, por exemplo.

Já para tirar o passaporte em Trento foi outra saga. As vagas só existem para daqui alguns meses e o agendamento é como no Consulado Italiano em SP: pela internet. Rata de perrengue que sou, entrei de madrugada e consegui a vaga de um desistente para dali 15 dias.

Quanto custa o passaporte italiano?

Paguei a taxa administrativa na Posta (cerca de 43 euro), comprei por cerca de 74 euro a marca da bollo (selo vendido nas tabacarias) e levei os documentos (duas fotos e cópia do RG italiano) na Questura. Em outros quinze dias o passaporte estava pronto. A validade do passaporte é de 10 anos.

Resumindo: meu processo na Itália durou cerca de três meses e a única coisa que eu pensei quando acabou foi AFFE MARIA.

Se você pretende entrar na saga, eu sugiro entrar no grupo Cidadania Italiana – Área Livre.

É claro que nesse texto há muitas lacunas, porque o reconhecimento é um processo complexo e que, dependendo da história da sua família, você tem direito ou não. É difícil? É. Caro? Ô. Mas não é impossível.

O Lago di Garda, meu mundo e a fotografia

Lago di Garda, na Itália. Foto: Mariana Gabellini.

Eu ia escrever um post sobre como o Lago di Garda (o maior lago da Itália!) é belo e o que tem de incrível para fazer por lá – até porque estou na Itália há três meses e nunca escrevi nada sobre o país. Mas, ah, enquanto editava as fotos lembrei do que o professor de Fotojornalismo da faculdade me disse certo dia – e me bateu uma tristeza.

Ele deu um trabalho muito simples para a sala: todos nós deveríamos retratar, através da fotografia analógica, a cidade de São Paulo. Basicamente, captar a alma da cidade! Fácil, fácil. Não sou muito fã do Parque Ibirapuera, mas gosto do contraste entre a área verde e os arranha-céus ao redor. Não existe nada mais paulistano que isso, certo? Errado.

castle malcesine lago di garda
uma foto sem pessoas no Lago di Garda

Filme: ok. Enquadramento: ok. Ampliação: ok. Minha nota: não ok. Eu tirei 2. DOIS.

E, claro, fui reclamar o absurdo. COMO ASSIM? O professor respondeu: “a técnica está correta, mas faltam pessoas nas fotos. Eu só vejo patos, árvores e prédios. Onde estão os seres humanos? Isso é Jornalismo!”. Oh, fiquei sem reação. Ele tinha razão.

largo di garda
outra foto sem pessoas

Escolhi Jornalismo porque amo escrever. Mas eu amo escrever porque é como eu melhor me relaciono com o mundo. Sou introvertida e isso tem guiado minha vida desde que eu nasci. Todas as minhas escolhas são fundamentadas na minha introversão. Não faço amigos facilmente, não falo de mim para qualquer um. Escolhi Jornalismo, criei um blog, mudei de país por isso. Para aprender a lidar com o que eu sinto e tentar me abrir um pouco mais para as pessoas, para o mundo. Parece um pouco egoísta visto dessa perspectiva, mas é como sou. Preciso controlar o meu lado sensível de algum jeito.

E fotografia, afinal,  é captar a alma das pessoas – às vezes, sem pedir licença. Eu tenho essa liberdade?

lago di garda italia
mais uma

Enquanto editava essas fotos, no entanto, decidi mudar. Vou arriscar a deixar minha bolha e invadir outros planetas pessoais também por meio da fotografia. E começarei na próxima viagem!

lago di garda vela
opa, essa tem pessoas! mas eu prefiro o barco

Nos próximos quinze dias, estarei em uma road trip pela África do Sul, por isso não atualizarei o blog nesse tempo. Mas para quem quiser acompanhar tudo em tempo real, segue meu Insta: @marianagabellini. E a viagem continua!