Alugar quarto em Berlim, uma missão quase impossível

Alugar quarto em Berlim

Em setembro comemoro mesversário de três meses em Berlim! Seria lindo se não fosse trágico: chegou ao fim meu contrato nesse apartamento. Em outras palavras: em outubro ficarei sem casa para morar! E o meu desânimo está no fato de que alugar quarto em Berlim é uma saga por si só.

Enquanto preparo as malas (uma de 32kg, uma de 15kg, um mochilão, a mochila do notebook e uma bolsa para a câmera – enumerar o peso faz parte do #drama), escrevo esse texto que mistura um pouco de desilusão e ansiedade. Porque é muito ruim não saber onde você vai morar mês que vem.

Pode ser que eu encontre um quarto espaçoso, iluminado, com boa localização e flatmates gente boa, como foi esse quarto de agora. Pode ser que eu volte para um hostel enquanto a busca continua – o que eu, confesso, já estou acostumada mas me faz muito infeliz. Pode ser que eu vá para a Polônia. Pode ser que <insira aqui qualquer coisa>.

Charlottenburg, em Berlim
Vista da janela do meu quarto em Charlottenburg

Alugar quarto em Berlim: por que não Airbnb?

Aqui em Berlim não existe Airbnb. A prefeitura da cidade proibiu e a razão é simples: a demanda por apartamentos é altíssima e a possibilidade de ter Airbnb significaria que os donos de apartamentos poderiam ganhar mais alugando quartos para turistas enquanto os habitantes da cidade se digladiariam para encontrar um quartinho decente. Os preços iriam às alturas. E também tem a história dos impostos. Então a prefeitura achou melhor não. Então, não existe Airbnb e… Eu acho isso ótimo. Nunca pensei que diria algo do tipo, mas é verdade.

Alugar quarto em Berlim ficou mais fácil porque não tem Airbnb.

Em Berlim, para anunciar o imóvel no Airbnb, o proprietário deve fazer um cadastro na prefeitura e aguardar uma autorização. Mais: os donos só podem disponibilizar até 50% da área do apê.

Mas, de qualquer forma, grande parte dos quartos são alugados para curta temporada: de um mês a seis meses. E isso também significa que pessoas como eu ficam mudando e mudando sempre. Há uma certa rotatividade entre os habitantes não-alemães – o que permite que você viva em bairros distintos e em diferentes Berlins. Há a Berlim dos baladeiros, vegetarianos, coxinhas, do pessoal de tecnologia, a Berlim artística… Há muitas Berlins!

E como cada bairro possui um meio ambiente próprio, dificilmente as pessoas saem da região onde moram. Como nada é perfeito, em quartos de curta temporada dificilmente os landlords oferecem a possibilidade de registro no município. E sem registro no município você é só um turista.

Como alugar quarto em Berlim
Em Berlim aprendi que essas araras a la Pinterest fazem sucesso porque são baratas na Ikea. Quem é que compra móveis de verdade quando está de mudança o tempo todo?

Como alugar quarto em Berlim: sites e grupos no Facebook

Há alguns sites que facilitam a tarefa de encontrar um quarto em Berlim. O mais famoso deles é o Wg-Gesucht. Lá, você vai encontrar quartos, lofts e apartamentos inteiros para alugar. Mas, como eu disse, a disputa é acirrada. Então, não se apegue a nenhum quarto com anúncio interessante.

Escreva um mini perfil com suas qualidades, o que você está fazendo em Berlim, quanto tempo pretende ficar, se é baladeiro ou não, vegetariano ou não, fuma ou não (as pessoas levam a sério isso por aqui) e envie para o maior número de anúncios possível. Quase nunca eles respondem, mas pode ser que você dê sorte.

Dicas para morar na Alemanha - Alugar quarto em Berlim
Dicas para morar na Alemanha: como alugar quarto em Berlim

Na minha opinião, a melhor maneira para encontrar um quarto para alugar é por meio dos grupos de Facebook. Estou em três muito bons: WG-Zimmer & Wohnungen Berlin, Zimmer in Berlin, Zwischenmiete e Short-term accommodation Berlin: WG, Zwischenmiete, flat-share, Zimmerbörse. Foi lá que encontrei esse apê que estou deixando, aliás.

Nesses grupos, a disputa é clara: é comum você ver 50 pessoas enviando mensagens interessadas em cada anúncio. Os primeiros a enviarem a mensagem inbox para o autor do anúncio tem prioridade. Quem visita e diz que fica com o quarto primeiro ganha.

Seleção natural pura.

Dia 29 – A tal da inteligência emocional alemã

Jane Birkin

Há quase um mês a viagem começou. Depois da Espanha, dei uma passadinha rápida em Portugal e sigo agora na Alemanha. Por aqui, tenho me questionado sobre a importância da paixão (alô, inteligência emocional?). Saí de casa com aquela vontade de mergulhar em algo novo e aprender um milhão de coisas. Deixei minha rotina de lado – odeio rotina mesmo – para tentar me reinventar. Sem prazo para acabar. Vida, aqui estou! Mas muito mais do que a arquitetura, a arte e a gastronomia de cada lugar, o que tem me cativado todos os dias é viver de um jeito muito diferente do meu.

Gosto de viver apaixonadamente. Demais! E foi aí, saltando de pára-quedas em um lugar novo, que toda a minha latinidade esbarrou em uma alma germânica. Dessas que é direta, controlada, fala baixinho (quando fala alemão) e parece uma enciclopédia viva. Divide o mundo em sim ou não, em pode ou não pode, em deveres, metas e projetos. Não é como se toda e qualquer forma de sentimento fosse colocada em uma planilha e tivesse um resultado definido, não. Nada disso! Mas é como se tudo fosse sensato. Até na forma de sentir.

Eles falam olhando nos olhos. Eles olham nos olhos o tempo todo. Caminhando pela rua pode ser que, quando um alemão cruzar contigo, você tenha a sensação de que existe alguém esmiuçando a sua alma só pelo olhar. Em cinco segundos. Tipo raio-X. E almas apaixonadas não entendem muito bem como tudo isso acontece, admito.

Alemães são sinceros. E, nossa, como a verdade pode ser algo duro de lidar! Eles sentem, eles pensam, eles guardam. E aí, creio eu, categorizam. Posso estar muito enganada, mas sinto (olha eu sentindo de novo!) que eles têm muito mais a ver com filosofia do que com romance. Na arte, são genuinamente Bauhaus.

Se você perguntar, espere a verdade. Se não perguntar, também. Eles convivem o tempo todo com essa belezinha – assim mesmo, como ela é. Se for fria e feia, tudo bem.

Hoje, enquanto me olhava despretensiosamente no espelho alemão, ele disse:

– Você é vítima do coitadismo.

QUÊ?! Vamos com calma, por favor.

E, em seguida, explicou:

– Mariana, você reclama mas não busca encontrar uma solução para o problema. Reclama por reclamar. E não muda porque não quer.

Ah, querido espelho! Sei que falar em caps lock não resolve os problemas do mundo, muito menos os meus. Mas às vezes é só uma forma de se expressar. Uma forma INTENSA e EXAGERADAMENTE apaixonada de se expressar.

Mas, olha, você tem razão, espelho meu. Estou acostumada a viver essa paixão toda em vão. De que vale uma paixão se tudo continua sempre igual?
Mudar não é só sair do lugar.